shalem · II / III · Plenitude
Shalem
Forças de vida opostas em teoria e prática
Hebraico antigo para «plenitude». Os quatro elementos formam o palco da existência. O quinto elemento é o próprio espaço, a consciência em que tudo se desdobra.
O quinto elemento
A fonte
A matriz silenciosa
A matriz silenciosa de onde todas as formas se erguem e para onde voltam a descer. Os quatro elementos constroem o palco da existência; o quinto é o próprio palco: o espaço, a consciência em que algo pode sequer acontecer. Nunca o vemos diretamente, tal como o olho não se vê a si mesmo.
„Ela une os elementos: o sopro entre as respirações, a luz no meio da sombra, a consciência que sonha e que sonha através de nós.“
Os quatro elementos
As qualidades dos elementos
Fogo · Água · Ar · Terra
Quatro forças primordiais dão forma ao mundo. Em cada pessoa atuam, umas vezes em equilíbrio, outras em pêndulo. A fonte impregna e sustenta cada uma delas.
Fogo
Estrutura · Clareza · Impulso
Estrutura e clareza, impulso e determinação, ação e ordem, dinamismo e atividade. A fonte dirige a energia transformadora e esclarece como e porquê acontece a mudança. Previne os rompantes destrutivos e caóticos.
Equilíbrio pela água:
recuperar a reflexão e a compaixão, praticar a ação atenta.
Água
Empatia · Criatividade · Profundidade
Empatia e criatividade, flexibilidade e altruísmo, calma e capacidade de adaptação, profundidade emocional, suavidade e continuidade. A fonte permite-nos viver conscientemente as emoções, compreender os processos emocionais e aprender com eles.
Equilíbrio pelo fogo:
recuperar clareza e determinação, saber dizer «não» de vez em quando.
Ar
Comunicação · Ideias · Movimento
Mobilidade e leveza, comunicação e ideias, troca e vínculo, respiração e orientação. A fonte impregna e sustenta o pensamento. Confere ao mundo físico uma dimensão espiritual.
Equilíbrio pela terra:
estrutura e concentração, ancorar as ideias e concretizá-las.
Terra
Paciência · Estabilidade · Cuidado
Paciência e cuidado, fertilidade e estabilidade, disciplina e constância, fundações sólidas. A fonte impregna e sustenta a terra. Sem o campo, é mera matéria; o campo dá-lhe sentido.
Equilíbrio pelo ar:
leveza e novas perspetivas, um ar fresco contra a estagnação.
O princípio
O princípio ativo & passivo
Duas faces da mesma força
Ativo: movimento, ação, tensão, calor, dador, dinâmico, traz luz e calor. Passivo: repouso, receção, distensão, frescura, recetivo, fluido, reativo, suave e nutritivo. Em cada um de nós atuam ambos, independentemente do sexo biológico.
Clareza & empatia: as decisões tornam-se compreensíveis tanto no plano racional como no emocional. Ação & adaptabilidade, estrutura & flexibilidade, determinação & fluir. O equilíbrio destes dois princípios torna possível um agir racional E emocional, decisões estruturadas E flexíveis.
- Fogo · Sol Yang ↔ Yin Água · Lua
- Ativo · que dá Fazer ↔ Ser Recetivo · que recebe
- Calor · Verão Ardor ↔ Geada Frescura · Inverno
- Estrutura · Clareza Foco ↔ Profundidade Empatia · Fluir
O espelho
Espelho da cisão interior & exterior
Como dentro, assim fora
Aquilo que por dentro não está em equilíbrio procura lá fora um adversário. A dilaceração dentro de nós torna-se tensão entre nós: o constante oscilar entre forçar e permitir, sem harmonia, transforma-se em inquietação, em conflito, no fim em exaustão. O mundo de que nos queixamos traz muitas vezes a caligrafia do nosso próprio desequilíbrio.
Por isso a cura não começa lá fora. Quando as duas forças trabalham uma com a outra em vez de uma contra a outra, nasce um centro tranquilo: claro e compassivo ao mesmo tempo, flexível e firme. Não menos força, mas menos atrito. Quem faz as pazes por dentro leva-as para fora sem as pregar.
Dois modos
Modo Pêndulo & Modo Equilíbrio
A maneira como vivemos
As duas forças do segundo passo podem atuar juntas ou uma contra a outra, e essa diferença decide mais do que qualquer força isolada. Nota-se menos no que alguém faz do que em como isso se sente com o tempo: se a própria vida custa forças ou as devolve.
Modo pêndulo
Em modo pêndulo vamos de um extremo ao outro. Ambas as forças estão lá, mas trabalham uma contra a outra: o que uma constrói, a outra recolhe. Custa mais energia do que o próprio assunto, e o que fica são conflitos por dentro e por fora, decisões desequilibradas e, no fim, esgotamento.
Modo equilíbrio
Em modo equilíbrio as duas forças agem em conjunto em vez de se oporem. Não metade e metade, mas com mobilidade: agir quando há que agir, receber quando há que receber. O que daí resulta é discreto e sustenta: decisões mais calmas, soluções duráveis, mais resistência.
As dez figuras
Ambos os modos surgem em formas reconhecíveis. Seis modos de oscilar, quatro de se ter de pé. Que haja mais modos de oscilar do que de se ter de pé não é acaso: do equilíbrio saem muitos caminhos, para dentro dele levam poucos.
Seis modos de oscilar
-
Se não for eu a fazê-lo, não fica bem feito. E bem feito é o mínimo. Perfeccionismo
Activo Estrutura e controlo em excesso. Regras claras, planos rígidos e expectativas altas governam o comportamento.
Receptivo Por baixo, uma insegurança funda e o medo de não ser suficiente.
Consequência Os sentimentos bloqueiam e a dúvida sobre si cresce. O balanço entre controlo e dúvida custa mais força do que o próprio trabalho.
A saída passa por aqui: Desempenho sereno
-
Quem tem aqui a visão do conjunto sou eu. Quem vê de outra maneira é porque não percebeu. Narcisismo
Activo Hiperactivo a mostrar poder e domínio. Coloca-se no centro e procura reconhecimento pela via de se impor.
Receptivo Por dentro, grande insegurança e dependência da confirmação alheia. A postura firme encobre a fragilidade.
Consequência Do vaivém nascem a pressão sobre os outros e os rompantes súbitos quando a confirmação falta.
A saída passa por aqui: Ajuda de pé
-
Eu sinto tão fundo que por isso tenho razão. Se me contradizes, falta-te empatia. Narcisismo emocional
Activo O próprio estado emocional torna-se a medida pela qual todos se deveriam guiar.
Receptivo Fixação excessiva nos próprios sentimentos, vividos como moralmente superiores.
Consequência Os sentimentos dos outros são passados por cima ou usados para estabilizar o mundo próprio. A frase «tu de certeza que compreendes» vira ferramenta.
A saída passa por aqui: Previdência
-
Eu estou bem, não te preocupes comigo. Diz-me antes do que precisas. Quem salva e ajuda
Activo A obrigação de se conter e guardar a harmonia, custe o que custar.
Receptivo Um excesso de empatia. As necessidades dos outros vêm antes das próprias como coisa óbvia.
Consequência Um vaivém constante entre querer ser bem-visto e a negação de si. No fim está o esgotamento, e ninguém o viu chegar.
A saída passa por aqui: Ajuda de pé
-
Só não quero fazer nada de errado. Deixa-me dormir mais uma noite sobre isso. Hesitação e dúvida
Activo A pressão de decidir com clareza e pôr ordem vira frustração quando não se vê êxito nenhum.
Receptivo Assoberbado pelos próprios sentimentos. Cada decisão parece grande e pesada de mais.
Consequência Um balanço duradouro entre insegurança e pressão para decidir. Não acontece nada, e com o tempo esse nada torna-se peso.
A saída passa por aqui: Quem resolve
-
Agora ou nunca. Das consequências falo quando cá estiverem. Impulsividade
Activo Age sem pesar, decide depressa, quer resultado já, sem considerar o que vem depois.
Receptivo Depois, muitas vezes assoberbado. Arrepende-se do que decidiu e a culpa fica.
Consequência O salto entre o acto impulsivo e a réplica emocional impede qualquer estabilidade. A conta chega sempre mais tarde.
A saída passa por aqui: Previdência
Isto não é um teste nem um diagnóstico. Lê as frases, não os rótulos. Se alguma soar como algo que já disseste, essa é toda a informação de que precisas.
Quatro modos de se ter de pé
-
Deixa-me dormir uma noite sobre isso e depois dou-te um sim firme. Previdência
Activo Toma decisões claras e ponderadas com base em análise sóbria, e planeia com o todo à vista.
Receptivo Conta com o efeito sobre os outros e mantém-se móvel quando surgem circunstâncias ou sentimentos novos.
Efeito Decisões ao mesmo tempo sensatas na substância e sustentáveis do ponto de vista humano.
-
Ainda não sei como. Mas sei por onde começamos. Quem resolve
Activo Estrutura, planeia, trabalha para um resultado e nomeia com precisão onde está o problema.
Receptivo Deixa espaço ao palpite e ao desvio, pensa fora do costume e deixa entrar sentimento e instinto.
Efeito Soluções coerentes e surpreendentes ao mesmo tempo, porque o pensamento rigoroso e o espírito livre trabalham juntos.
-
Estou aqui. Até quinta, depois preciso de uma noite para mim. Ajuda de pé
Activo Atende às próprias necessidades e traça limites claros. Sabe quando é altura de se defender a si mesmo.
Receptivo Ajuda por afecto verdadeiro e permanece presente sem se entregar por inteiro.
Efeito Um apoio que sustenta, porque não se paga à custa de quem o dá. Proximidade com limite.
-
Isto nós conseguimos. Não esta noite, mas conseguimos. Desempenho sereno
Activo Determinado e disposto, avança com intenção clara e empenho verdadeiro.
Receptivo Cuida do descanso, das pausas e do próprio estado, e por isso mantém-se em fluxo.
Efeito Mais eficaz e mais assente a longo prazo, porque a força não trabalha contra si própria.
O narrador interior
Quem está a contar isto?
A voz que faz do vivido uma história
Entre aquilo que te acontece e aquilo que pensas sobre isso está alguém. Pega no vivido, nos sentimentos e nos pensamentos e faz deles uma frase com princípio e fim. Depois tomas essa frase pela realidade. Ela é uma versão dela.
Se só uma das duas forças estiver a trabalhar, a história fica unilateral: um relato sem sentimento, ou um sentimento sem chão. Quando as duas trabalham juntas, nasce uma narrativa que te sustenta em vez de te explicar. É aqui que se juntam as dez figuras de há pouco. Elas não são quem tu és. São o modo como se está a contar agora.
A árvore
De onde o narrador tira a sua matéria lê-se numa árvore. Três níveis, e só o de cima te é consciente.
-
Copa
A consciência. Aqui vês de onde vem um pensamento, de onde vem um sentimento, de onde vem um acto. Aqui o narrador está livre.
-
Tronco
A ligação. O que está em baixo sobe aqui e tinge a percepção antes de a poderes verificar. A maioria das reacções nasce a meia altura.
-
Raízes
O escondido. Sentimentos antigos e partes postas de lado que torcem o olhar sem se mostrarem. Não são o defeito da árvore, são o seu alimento.
As reacções fortes raramente crescem onde se tornam visíveis. Quando o narrador reconhece como os níveis se ligam, a história volta a correr.
Quando alguém abana a história
A crítica raramente acerta na coisa. Acerta na versão que tens de ti, e por isso dói mesmo quando tem razão. Vale a pena distinguir dois tipos.
Dirigida
Um convite a crescer
- Mostra uma parte que ainda não olhaste. Desagradável e útil ao mesmo tempo.
- Abre uma vista que sozinho não tens. A própria casa nunca se vê de fora estando lá dentro.
- Torna uma fraqueza visível e por isso trabalhável. O que ninguém nomeia fica como está.
Sem alvo
O arqueiro sem treino
- Separa o conteúdo do tom. Mesmo uma flecha mal apontada pode cair perto.
- O que alguém diz sem medida costuma dizer mais dele do que de ti. A pergunta continua permitida: que efeito faço?
- Nem toda a crítica é justa. Distinguir quando aceitas algo e quando te proteges não é dureza, é treino.
Tudo tem direito a respirar.
Princípio universal
Conceitos comuns
O mesmo princípio em muitas disciplinas
Ativo e recetivo, fogo e água, yang e yin. O mesmo princípio encontra-se na psicologia, na biologia, na física, na MTC, no yoga, no Spiral Dynamics e nos estudos de género. Jung integra o animus e a anima. As células comunicam segundo o princípio de chave e fechadura. A luz mostra-se como onda e como partícula: a sobreposição como equilíbrio.
Yin e yang sem bloqueios: a base da saúde. Shiva (ativo) e Shakti (recetiva). A autorrealização nasce de uma síntese interior. A verdadeira liderança torna-se possível quando as pessoas alcançam o equilíbrio interior. Livres de papéis rígidos, abre-se um espaço para caminhos ao mesmo tempo intuitivos e racionais.
- Psicologia (Jung) Animus · ativo Anima · recetiva
- Biologia / Química Chave · mensageiro Fechadura · recetor
- Física Partícula · Fotão Onda · Vibração
- MTC / Yoga Yang · Shiva Yin · Shakti
O quinto elemento não tem imagem: é o espaço onde todos os outros aparecem.
A aplicação
Onde o modelo começa a trabalhar
Quatro forças em dois locais de trabalho
Até aqui o modelo esteve em casa nas disciplinas. Psicologia, física, MTC, salas onde se pode pensar com calma. Agora atravessa uma porta atrás da qual alguém está de pé há seis horas, e ali já não lhe é permitido ser teoria. Se fazes o turno da manhã, «água em excesso» não é um símbolo. É a terça-feira em que, outra vez, não disseste que não.
O serviço
Seis e um quarto, passagem de turno. Duas faltas na escala, um quarto onde a noite foi longa, e o dia ainda nem começou.
Estabilidade e cuidado
Quem segura o plano, faz a ronda e trata de que, de manhã, esteja tudo onde tem de estar.
- Repetes o mesmo gesto pela quatrocentésima vez e reparas que, enquanto o fazes, já há muito deixaste de estar ali.
- Alguém propõe outra maneira de fazer as coisas e, antes de o ouvires, dizes: «Aqui fazemos sempre assim.»
- O quarto 4 precisava de mais dez minutos, mas o plano não prevê dez minutos, e o plano ganha.
Aqui ajuda o ar: um olhar de fora, uma pergunta vinda de outro serviço, qualquer coisa que abra a rotina uma vez antes de ela virar parede.
Emoções e empatia
Quem se senta à beira da cama, ouve o medo por baixo da pergunta e ainda fica quando o turno já acabou.
- Vais para casa e levas contigo, até à mesa da cozinha, o rosto do quarto 7.
- Alguém pergunta se podes fazer o sábado e ouves-te a dizer que sim antes de teres pensado.
- Estás exausto há semanas e tomas isso por um defeito de caráter, não por um resultado.
Aqui ajuda o fogo: a frase clara que diz que não sem ser fria, e que te segura mais tempo na profissão do que qualquer outro sim.
Impulso e motivação
Quem observa, decide e trata, e empurra o caso para a frente porque um resultado não espera pela semana que vem.
- Explicas o diagnóstico por inteiro e sem um erro, e não reparas que do outro lado já ninguém te está a ouvir.
- No fim da visita sabes tudo sobre o resultado e nada sobre a pessoa que está por baixo dele.
- A equipa acompanha, mas de cabeça baixa, e já ninguém diz o que na verdade está a ver.
Aqui ajuda a água: abrandar uma vez, olhar como o que foi dito chega ao outro, e voltar a ter a pessoa à frente do resultado.
Comunicação e flexibilidade
A reunião que junta todas as áreas, em que enfermagem, medicina, terapia e serviço social veem o mesmo caso por quatro lados.
- Ao fim de cinquenta minutos de reunião há seis boas propostas em cima da mesa e ao lado de nenhuma está um nome.
- A decisão fica adiada porque ainda falta um ponto, e na semana seguinte falta outro.
- Estão todos informados e, mesmo assim, no serviço ninguém sabe o que passa a valer.
Aqui ajuda a terra: uma decisão, um nome, uma data, para que da conversa saia alguma coisa que também se possa fazer à beira da cama.
O espírito não é uma coisa que venha por acréscimo. É o espaço entre os papéis: que a visita saiba o que o turno da noite viu, e que a terapia saiba porque é que hoje a família não vem. Quando falta, quatro pessoas certas trabalham lado a lado, cada papel impecável em si, e mesmo assim não nasce uma equipa. Quem está deitado na cama é o primeiro a dar por isso, quase sempre por responder quatro vezes à mesma pergunta.
A equipa
Dez pessoas que constroem software em conjunto. Um programa que muitos milhares de pessoas usam todos os dias, e esta manhã há qualquer coisa que já não funciona e que ontem ainda funcionava.
Base e fiabilidade
Quem trata do chão em que todos os outros se apoiam: que o sistema ande, que o que é antigo continue a funcionar, que de noite nada fique parado.
- Chega uma proposta e a tua primeira pergunta não é se ela é boa, é o que é que ela te pode partir.
- Trabalham há quatro anos segundo a mesma regra e já ninguém sabe que problema é que ela resolveu um dia.
- A verificação antes de uma alteração pequena demora mais do que a própria alteração, e toda a gente se habituou a isso.
Aqui ajuda o ar: deixar uma vez que alguém de fora olhe para aquilo e aguentar a pergunta de se este desvio ainda faz falta.
Escutar e acolher
Quem fala com as pessoas que usam o programa e leva o aperto delas para dentro da equipa de maneira que lá chegue mesmo.
- Alguém te descreve o problema que tem e, nessa mesma tarde, prometes uma solução que ninguém consegue construir nesta semana.
- Andas com as queixas de trinta pessoas às costas e já nem tu sabes qual delas é que é mesmo urgente.
- Na reunião não dizes nada, porque não queres tornar o trabalho de ninguém ainda mais pesado, e a indicação mais importante do mês fica debaixo da mesa.
Aqui ajuda o fogo: decidires-te pela única coisa que vem primeiro e dizeres com honestidade aos outros que a deles tem de esperar.
Impulso e arranque
Quem começa coisas novas, já vê o passo seguinte e prefere acabar alguma coisa hoje a acabá-la depois de amanhã.
- Lançam o que é novo na sexta-feira à noite e no sábado está outra pessoa sentada a endireitar aquilo.
- Queres despachar depressa e deixas ficar aquele sítio que sabes que daqui a três meses vai cair em cima de alguém.
- Quem trabalha mais devagar está a atrasar-te; que essa pessoa esteja precisamente a verificar o sítio perigoso não te passa pela cabeça.
Aqui ajuda a água: parar um instante e ouvir o que a velocidade faz a quem tem de viver com aquilo depois, dentro da equipa e lá fora.
Esboço e troca
Os esboços, as discussões e as reuniões em que a equipa pensa em conjunto antes de alguém construir seja o que for.
- Falam pela terceira vez sobre o mesmo esboço, e o desenho na parede é mais bonito do que tudo o que já anda a funcionar.
- Dois caminhos seriam ambos possíveis e, como nenhum se deixa provar, continua-se a comparar em vez de escolher.
- Ao fim de hora e meia toda a gente teve razão, e ninguém começa.
Aqui ajuda a terra: escrever uma decisão, construir um pedaço pequeno dela e deixar que a usem, para que do esboço saia alguma coisa que sustente.
Aqui o espírito não é a reunião nem a ferramenta. É aquilo que passa de um papel para o outro: que quem constrói o novo saiba o que fica parado de noite, e que quem trata do chão saiba para que serve a pressa. Quando falta, quatro pessoas certas constroem lado a lado, cada peça bem trabalhada em si, e mesmo assim não nasce um todo. Vê-se no resultado: tudo funciona, e nada encaixa.
A objeção
O que estás a pensar agora
Oito objeções, e o que se lhes pode responder
Estas oito frases surgem quase sempre assim que se fala das duas forças. Não são desculpas, são protecção, e a protecção quase sempre tem um motivo. Por isso estão aqui antes que alguém as arrume.
Homens e mulheres são simplesmente diferentes. Não se devia misturar isso.
Negar as diferenças seria absurdo, e ninguém o pede. Trata-se de outra coisa: a força activa e a receptiva não são sexos, são movimentos. Cada pessoa faz as duas, todos os dias. Quem decide de manhã e escuta à noite não misturou nada, usou ambas. A pergunta não é de quem é cada força. É se consegues chegar às duas quando precisas.
Eu sou assim, e até agora resultou. Porque haveria de mudar?
Não tens de o fazer. O equilíbrio não tira nada, acrescenta. Quem é decidido continua a sê-lo e ainda pode esperar. Quem é sensível continua a sê-lo e ainda pode traçar um limite. E a frase «até agora resultou» traz prazo de validade: vale até à primeira situação para a qual o teu comportamento habitual nunca foi feito.
Se mostro sentimentos, deixam de me levar a sério.
Não é fixação, é experiência, e em certos espaços continua a ser verdade. Só que a medida está a mudar. O que ontem passava por fraqueza passa cada vez mais por competência, e o inverso também. Quem consegue nomear com calma o que está a acontecer num conflito raramente é levado menos a sério. Quase sempre a sala cala-se e ouve.
Se mostro emoções, fico exposto.
Sim. É esse o preço, e raramente é dito com honestidade. Mostrar o que se sente é pôr algo nas mãos de alguém. Por isso a pergunta não é se, mas a quem. A abertura sem discernimento não é corajosa, é imprudente, e é exactamente isso que a força receptiva produz quando falta a activa. Juntas, dão proximidade com limite.
As quatro primeiras objeções defendem uma imagem de si. As quatro seguintes perguntam mais baixo: será que uma vida assim é possível?
Não conheço ninguém que viva assim. Porque seria diferente comigo?
Provavelmente porque ninguém te conta. Este tipo de mudança acontece por dentro e não faz barulho. Que faltem exemplos é verdade na mesma: durante muito tempo este passo teve pouco espaço, e sem alguém que vá à frente parece inseguro. Mas nada melhora enquanto todos esperam que comece outro.
Isso simplesmente não é comigo. Não sou desse género.
«Não sou desse género» raramente é uma observação. Costuma ser uma frase que alguém ouviu cedo e guardou. Sabe a lucidez e não passa de um relatório antigo sobre ti que ninguém verificou desde então. Não é preciso combatê-la. Basta olhá-la uma vez e perguntar de quem vem.
É demasiado esforço. Não vejo resultado nenhum.
Quanto ao fundo, a objeção tem razão: vai devagar e não há nada a ganhar. Só que o resultado também não se anuncia. Aparece como uma discussão que não descarrila. Como uma noite em que deixas de remoer. Como um não que depois não te custa três dias. Quem espera um acontecimento perde o essencial: a mudança consiste precisamente em acontecer menos.
Mas não se pode estar sempre em equilíbrio.
Não, e ninguém o afirma. O equilíbrio não é uma regra de metade por metade, é mobilidade. Há semanas que só pedem acção e tempos que só permitem repouso. Equilibrado não é quem está sempre no meio, mas quem encontra o caminho de volta. O que o distingue do pêndulo não é a amplitude. É que o movimento se acalma.